“Esta grande cidade de Temixtitlan está fundada nesta lagoa salgada e, da terra firme até o corpo da referida cidade, por qualquer parte que quiserem nela entrar, há duas léguas. Tem quatro entradas, rodas de calçada feita a mão, tão largas como duas lanças curtas, É tão grande a cidade como Sevilha e Córdoba. São suas ruas, digo as principais, muito largas e muito direitas e algumas destas e todas as demais são a metade de terra e a outra metade é água, pela qual andam em suas canoas, e todas as ruas de trecho em trecho estão abertas por onde atravessa a água de umas às outras, e em todas estas aberturas, algumas são muito largas, há pontes muito amplas e de muito grandes vigas, juntas e sólidas e bem lavradas, e tais, que por muitas delas podem passar dez a cavalo, lado a lado. E vendo que se os naturais desta cidade quisessem fazer alguma traição, tinha para isso condições, por ser a cidade edificada da maneira que digo, tiradas as pontes das entradas e saídas, podiam deixar-nos morrer de fome sem que pudéssemos sair à terra. Tão logo entrei na cidade apressei-me em fazer quatro bergantins e os fiz em muito breve tempo, de tal forma que podiam lançar trezentos homens em terra e levar os cavalos cada vez que quiséssemos.

Tem esta cidade muitas praças, onde há contínuo mercado e comércio de compra e venda. Tem outra praça tão grande como duas vezes a cidade de Salamanca, toda cercada ao redor de portais, onde há diariamente acima de sessenta mil pessoas comprando e vendendo; onde há todos os gêneros de mercadorias que em todas as terras se encontram.

(…) Há nesta grande praça uma grande casa como uma audiência, onde sempre se sentam dez ou doze pessoas, que são juízes e julgam todos os casos e coisas que no dito mercado ocorrem, e mandam castigar os delinquentes. Há na referida praça outras pessoas que andam continuamente entre as gentes, fiscalizando o que se vende e as medidas com que medem o que vendem; e já se viu quebrar alguma medida falsa.

Há nesta grande cidade muitos templos ou casas de seus ídolos de construções muito bonitas, por suas paróquias e seus bairros e nas principais há religiosos que residem nelas, para as quais, além das casas onde estão os ídolos, há bons aposentos. Todos estes religiosos vestem-se de negro e nunca cortam o cabelo, nem o penteiam desde que entram na religião até que saem, e todos os filhos dos principais, tanto senhores quanto cidadãos honrados, estão naquelas religiões e hábito desde a idade de sete ou oito anos até que os tiram para casar e isto acontece mais com os primogênitos que hão de herdar as casas do que com os outros. Não tem contato com mulheres nem entram nenhuma delas nas referidas casas de religião. Abstêm-se de comer certas iguarias e mais em algumas épocas do ano do que em outras; e entre estes templos há um que é o principal, que não há língua humana que saiba explicar a grandeza e singularidade dele, porque é tão grande que dentro do circuito dele, que é todo cercado de muro muito alto, se podia muito bem construir uma cidade de quinhentos habitantes; tem dentro deste circuito, todo ao redor, aposentos muito elegantes em que há grandes salas e corredores onde se alojam os religiosos que ali estão. Há bem quarenta torres muito altas e bem construídas, sendo que a maior tem cinquenta degraus para subir ao corpo da torre; a principal é mais alta do que que a torre da igreja maior de Sevilha. São tão bem construídas , tanto de cantaria quanto de madeira, que não podem ser melhor feitas nem lavradas em nenhuma parte, porque toda a cantaria de dentro das capelas onde estão os ídolos é de entalhe em madeira de imagens sagradas e o madeiramento é todo lavrado e pintado com motivos de monstros e outras figuras e trabalhos. Todas estas torres são sepulcros de senhores e as capelas que nelas existem são dedicadas cada uma ao ídolo a que tem devoção.

Há três salas dentro deste grande templo, onde estão os principais ídolos, de maravilhosa grandeza e altura, e de muitos adornos e figuras esculpidas, tanto na cantaria quanto no madeiramento, e dentro destas salas estão outras capelas cujas portas que dão entrada a elas são muito pequenas e elas desta maneira não tem claridade alguma, e ali não estão senão aqueles religiosos, e não todos, e dentro destas estão as estátuas e figuras dos ídolos, que ainda, como eu disse, haja fora também muitos. Os principais destes ídolos, nos quais tinham mais fé e crença, arranquei de seus pedestais e os lancei pelas escadas abaixo e limpei aquelas capelas onde guardavam, porque todas estavam cheias de sangue que sacrificam, e coloquei nelas imagens de Nossa Senhora e de outros santos, que Montezuma e os naturais muito lamentaram; os quais primeiro me disseram que não o fizesse, porque se se soubessem nas comunidades, estes se levantariam contra mim, porque acreditam que aqueles ídolos lhes davam todos os bens temporais, e que os deixando maltratar, se aborreceriam e não lhes dariam nada, e lhes tirariam os frutos da terra e as pessoas morreriam de fome.

(…) Há nesta grande cidade muitas casas muito boas e muito grandes, a razão de haver tantas casas principais é que todos os senhores da terra, vassalos de Montezuma, têm suas casas na dita cidade e residem nela certo período do ano, e além disso há muitos cidadãos ricos que têm desta maneira muito boas casas. Todos eles, além de ter grandes e boas casas, têm bonitos jardins de flores de várias formas, tanto nos aposentos altos quanto baixos. Por um dos caminhos que adentra esta grande cidade entram dois canos de argamassa, da largura de dois passos cada um, com a altura de um estado, e por um deles corre abundante e muito boa água doce, com a espessura do corpo de um homem, que vai dar à cidade, da qual se servem e bebem todos. O segundo, que permanece vazio, serve para quando querem limpar o primeiro, já que por aquele jorra a água enquanto se limpa o primeiro; e porque a água que há de passar por pontes em razão das aberturas estreitas por onde atravessa a água salgada, lançam a doce por uns canais tão volumosos como um boi, que são da extensão das ditas pontes, e assim serve toda a cidade.

Trazem para vender a água em canoas por todas as ruas, e a maneira de como a recolhem do cano é que chegam as canoas sob as pontes por onde estão os canais, e ali há homens no alto que enchem as canoas, e lhes pagam por seu trabalho. Em todas as entradas da cidade e nos locais onde descarregam as canoas, que é onde chega a maior quantidade dos mantimentos que entram na cidade, há cabanas onde estão pessoas como fiscais e que recebem certum quid de cada coisa que entra. Isto não sei se o leva o senhor ou se é próprio para a cidade, porque até agora não o soube, mas creio que é para o senhor, porque em mercados de outras províncias viu-se recolher aquele direito para o senhor delas. Há em todos os mercados e lugares públicos da cidade, todos os dias, muitas pessoas, trabalhadores e mestres de todos os ofícios, esperando que os contrate para suas jornadas.

(…) que maior grandeza pode haver do que um senhor bárbaro como este tivesse reproduzido em ouro e prata e pedras e plumas, todas as coisas que sob o céu há em seu domínio, tão natural em ouro e prata, que não há ourives no mundo que melhor o fizesse, e em pedras que não há bastante entendimento que compreenda com que instrumentos se fez tão perfeito, e em pluma, que nem de cera nem em nenhum bordado se poderia fazer tão maravilhosamente. O senhorio de terras que este Montezuma tinha não se pode calcular, já que a toda parte, duzentas léguas de um extremo e de outro daquela sua grande cidade, que não fosse cumprida a sua ordem, enviava seus mensageiros, ainda que houvessem algumas províncias de entremeio nestas terras com quem ele mantinha guerra. Mas pelo que se alcançou, e eu dele pude compreender, era seu domínio tão extenso quanto a Espanha, porque até sessenta léguas deste lugar de Putunchán, que é o rio de Grijalva, enviou mensageiros para que se tornassem vassalos de vossa majestade os naturais de uma cidade que se diz Cumatán, que havia da grande cidade a ela duzentas e vinte léguas, porque as cento e cinquenta eu fiz andar e ver aos espanhóis. Todos os demais senhores destas terras e províncias, em especial os comarcanos, residiam, como já disse, grande parte do ano naquela grande cidade e todos ou a maioria tinham seus filhos primogênitos ao serviço de Montezuma.

Em todos os domínios destes senhores havia forças organizadas e nelas gente sua, e seus governadores e coletores do serviço e renda que de cada província lhe davam e havia conta e razão do que cada um era obrigado a dar, porque tem caracteres e figuras escritas em papel que é por onde se entendem. Cada uma destas províncias concorria com sua espécie de contribuição, segundo a qualidade da terra, de maneira que a seu poder vinha toda sorte de coisas que nas ditas províncias havia. Era tão temido de todos, tanto presentes quanto ausentes, que nunca príncipe do mundo o foi mais. Tinha, tanto fora quanto dentro da cidade, muitas casas de prazer, cada uma com a sua maneira de entretenimento, tão bem edificadas, destinadas a um grande príncipe e senhor. Tinha dentro da cidade suas casas de hospedagem, tais e tão maravilhosas, que me parecia quase impossível poder dizer da beleza e tamanho delas, nada mais podendo expressar a não ser que em Espanha não há casas semelhantes.”

Roteiro

Desenvolva cada um dos tópicos listados ao lado.

  1. Elabore breve perfil biográfico do autor.
  2. Identifique os dados gerais e a natureza do documento.
  1. Discuta a noção de conquista para o espanhol.
  2. Examine a noção de conquista para o natural.
  1. Retire do texto os elementos que ajudem a configurar os tópicos seguintes:
    a. Perfil arquitetônico da cidade
    b. Economia e atividades produtivas
    c. Religião, clero e prática religiosa
    d. Sociedade e estratificação social
    e. Estado e relações de poder
    f. Transporte e abastecimento urbano.
  2. Com estes elementos revelados por Hernán Cortés, construa uma síntese da Sociedade Asteca.
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Como citar este post:

SILVA, Dinair Andrade da. “Roteiro de análise de fonte primária – Temixtitlan, a capital do império azteca vista por Cortés – Hernán Cortés, 30.10.1520”. In: Histórias das Américas. Disponível em: https://historiasdasamericas.com/americas/america-indigena/sociedades-pre-colombianas/temixtitlan-a-capital-do-imperio-azteca-vista-por-cortes/. Publicado em: 29/06/2020. Acesso: [informar a data de acesso].