Saudação aos Formandos do Curso de História da Universidade de Brasília
Turma do Primeiro Semestre de 2006

Participamos, nesta oportunidade, de um ato solene que se caracteriza por um forte simbolismo: o encerramento formal do tempo das múltiplas atividades da graduação e do convívio universitário e o começo do tempo das práticas docentes e do exercício do ofício de historiador.

Ao homenagear-me com tamanha honra fazendo-me seu patrono, vocês impuseram-me grave obrigação. A de trazer até vocês, neste momento, algo como as últimas recomendações essenciais ou a simulação da abertura de um testamento intelectual de historiador. E eu não me sentiria feliz se não o fizesse com a fala do coração que é, nestas ocasiões, mais pertinente e expressiva do que a da razão.

Inicialmente, dirijo-me aos seus familiares para pedir-lhes que recordem os anos que se seguiram à euforia resultante da aprovação no vestibular. Densos anos foram aqueles: tempos de alegria, de preocupação, de ansiedade, de cumplicidade e de expectativa compartilhada. Quantos projetos adiados, quantas trajetórias redirecionadas, quantas dificuldades superadas, quantas ações reorientadas. E tantas outras situações se apresentaram: algumas previsíveis, outras inusitadas. Fragmentos de felicidades… Fragmentos de constrangimentos… Por todas estas razões, vocês também são homenageados e co-participantes desta festa da chegada que, simultaneamente, torna-se a festa da nova largada. Por tudo isso, cumprimento-os com um abraço forte.

Agora, caras formandas e caros formandos, falo com vocês, em tom de recapitulação da matéria dada.

A partir desta noite, estarão formalmente habilitados a desempenhar as tarefas para as quais foram preparados ao longo do curso. Lucien Febvre, o combativo historiador francês, na primeira metade do século XX, ensinou uma lição dotada de profundo significado que deverá ficar gravada em nosso cérebro e alma: […] para fazer história virai decididamente as costas ao passado e vivei primeiro. Não apenas a vida intelectual em todos os seus aspectos, mas também a vida pessoal na sua plenitude. Estejam atentos para a impossibilidade de se separar a ação do pensamento; a vida de historiador e de professor de História da vida doméstica.

O historiador e o professor de História devem compreender que os acontecimentos não se concretizam por acaso. Eles têm uma razão de ser, uma lógica explícita ou, talvez, oculta.

Eis aí uma das tarefas, não das mais fáceis, enfrentada pelo estudioso da História. Este não deve se satisfazer com as explicações mais óbvias, ainda que mais cômodas. Elas, geralmente, têm curto alcance e pouca profundidade, deixando a todos apenas na superfície da realidade.

É fundamental que o historiador e o professor de História compreendam os conceitos e os mecanismos que envolvem os acontecimentos. A primeira tarefa é, pois, a compreensão. Quanto ao conhecimento, porém, o estudioso da História deve manter-se aberto e sempre disposto a incorporar as parcelas de verdade que, paulatinamente, apresentam-se à medida que se aprofunda a análise da ciência das mutações. O que se pretende não é alcançar a verdade, mas reduzir as incertezas…

Bloch, vocês bem sabem, definiu o historiador como um homem de ofício. Que ofício é esse? Como praticá-lo? Em primeiro lugar, o historiador e o professor de História devem desenvolver a capacidade de converter o seu presente vivido em reflexão histórica, além de pensar a questão da legitimidade da História que, ultrapassando o seu problema epistemológico (que inclui naturalmente o intelectual e o científico), toca os domínios do civismo, da Ética e da Moral. Nesta perspectiva, o pretenso homem de ofício, carrega responsabilidades e obrigações. Há que prestar esclarecimentos. Há que dar explicações. Há que difundir o seu trabalho.

Portanto, esse artesão da História deve ser uma pessoa de convicção e de firmeza para pode demonstrar, cotidianamente, sua consciência profissional. Deve, ainda, incluir entre suas tarefas o desenvolvimento do espírito crítico e da criatividade. Dessa forma acreditará no papel da História na construção da democracia e, ao mesmo tempo, lutará para que tal papel não se torne irrelevante nunca. Sua expressão oral e escrita deverá primar pela simplicidade, correção e clareza para que seja entendido também por aqueles que começam a sua caminhada pelo mundo do conhecimento e pelo mundo das realidades vividas: os jovens.

O estudioso da História procura ultrapassar seus limites, caminhando muito além deles. Precisa estar consciente de que a civilização é objeto singular do historiador e do professor de História uma vez que ela, a História, além de testemunhar, integra a civilização.

Vocês estão certos de que, como as demais áreas do conhecimento, a História possui a austeridade necessária, explicitada por um instrumental teórico, metodológico e técnico, complexos e sofisticados. No entanto, não se pode esquecer: a História é também uma distração. O gosto singelo e a curiosidade aparentemente ingênua precedem e estimulam o desejo de conhecer, de compreender e de explicar esta ciência dos homens no tempo. Por esta razão, estejam atentos. Para se elaborar um bom trabalho de História, para se promover um ensino adequado, para se conseguir que todos os alunos a amem e não a detestem, como costuma acontecer, é preciso ensinar pacientemente a dupla vertente da nossa ciência: suas necessárias austeridades e seus gozos estéticos próprios. Mas, não parem por aí! Há muito mais… Recordem que a História inclui, por um lado, o rigor científico, a boa erudição, a fina investigação sempre criteriosa dos mecanismos da realidade observada; por outro, o grande prazer, a volúpia de trabalhar também com as singularidades.

Em seguida, que tal mais uma lição primorosa do medievalista de Estrasburgo? Evitemos retirar de nossa ciência sua parte de poesia.  Isto não significa dizer, e vocês sabem muito bem, que a História seja uma arte, como o é a literatura. Significa, isto sim, afirmar que a História é uma ciência que detém, entre as suas características, o fazer poético. Como filha do seu tempo, ela jamais se reduzirá às abstrações, às leis ou às estruturas.

Saibam que a História é, ainda hoje, uma ciência na infância e, por conseqüência, uma ciência em marcha. Por isso,

o historiador deve ser um viajante atento, um explorador obstinado e teimoso que busca o desconhecido e a aventura. Não mais se aceita um historiador ou um professor atuando como um burocrata da História.

A despeito de Heródoto ter escrito o seu relato sobre as guerras entre persas e gregos, na Grécia do século V a. C., a História tornou-se disciplina acadêmica somente no século XIX, sob a forma híbrida de arte literária e conhecimento científico. Na última centúria, o conhecimento histórico se estendeu e se aprofundou significativamente. Neste século XXI, devemos aprofundar e alargar nossas reflexões sobre a alvorada da História que vivemos, sempre à procura de novos métodos, novos objetos e novas abordagens.

Rechacem todas as práticas redutoras da História. Ensinem seus alunos a pensar. Pensar a História. Pensar a pesquisa histórica. Pensar menos como indivíduo e mais como nação. Pensar de maneira incomum. Pensar grande. Pensar rica e generosamente…

Lembrem-se sempre de que os princípios que nortearam o surgimento dos Annales d’histoire économique et sociale, enunciados em 1929, continuam plenamente válidos posto que não perderam ainda a sua atualidade. A História-problema a substituir a velha narrativa dos acontecimentos. A História que contempla todas as manifestações do homem em lugar da estreita e superficial história política. A História que estabelece um diálogo constante, franco e construtivo com todas as ciências do homem em detrimento daquela vinculada à compartimentação do conhecimento, à especialização estreita e ao isolamento obscuro e estéril do saber.

Na seqüência de pensamento, quero enfatizar, sobremaneira, a necessidade do diálogo com as demais ciências do homem. A troca de idéias é imprescindível para o avanço que almejamos. Mas, a promiscuidade da História com as ciências humanas, não. O contato da História com as demais ciências facilitará, com certeza, a renovação dos estudos da nossa disciplina. Entretanto, a imersão da História nas ciências humanas significa a descaracterização da História, fato que não se pode tolerar ou admitir.

Quantas e quantas vezes, ao longo do curso, repetiu-se a pergunta: O que é a História? A História é busca, portanto, escolha. A História não é ciência do passado, pois o passado não pode ser objeto de ciência. O objeto da História são os homens no tempo. Mas, o que é o tempo? O tempo é a matéria concreta da história ou, em outras palavras, o tempo é a dimensão de análise da História. O tempo da História é múltiplo e não uniforme. Por conseguinte, é diferente do tempo do relógio. A História é a ciência do tempo e da mudança.

Tenham sempre presente que a objetividade do conhecimento histórico pouco ultrapassa o mito. No início, vocês se espantaram com semelhante afirmação tão plena de sentido. Ao escrever a História, o historiador coloca muito de si mesmo no seu texto. O discurso histórico é uma criação pessoal. Da mesma forma, ao dar uma aula de História, o professor deixa a sua marca tanto na escolha do enfoque e na indicação dos textos quanto na ênfase da análise e na direção da discussão. A exposição oral do professor não deixa de ser também uma invenção pessoal.

Lembrem-se também, queridas formandas e queridos formandos, de que

as estruturas materiais da sociedade são insuficientes para explicar as realidades sociais. Outros elementos intervêm no processo de explicação com igual ou maior força. Devemos nos interessar também […] pelas idéias, por aquilo que as pessoas têm no espírito e que determina o seu comportamento. Esses são, realmente, elementos imponderáveis que interferem no comportamento humano.

Portanto, a Psicologia e a Psicanálise oferecem interessante instrumental de análise para o historiador.

Outra pergunta tantas vezes posta diante de vocês. Para que serve a História? O estudo das relações dos homens no passado propicia a compreensão das relações dos homens do presente. O estudo da História possibilita a compreensão das questões do presente. O texto historiográfico desempenha ainda uma função ideológica. Além disso, fazer História é um entretenimento: o historiador escreve o seu texto por prazer. E proporciona prazer ao leitor do seu texto…

Ensinamentos interessantes de História nos chegam de todas as partes. De longe e de perto. Uma lição brilhante nos ensinou Antônio Americano do Brasil. Intelectual desconhecido ou intelectual esquecido, não importa. Goiano ilustre. Médico por formação acadêmica, foi político por acaso, poeta e romancista por sensibilidade e historiador casual por opção. Homem de fala fluente, sonora e rápida; de escrita densa, profunda e culta. Manejava com maestria a língua pátria e dominava bem as línguas modernas. Possuía um conhecimento amplo e profundo das correntes de pensamento que avançaram até as primeiras décadas do século XX. Em 1923, ao fazer um discurso na Câmara dos Deputados sobre o Ensino Secundário no Brasil, denunciou a maneira como então se ensinava a História em nossas escolas. Escreveu que A história, por exemplo, não pode mais ser o amontoado incoerente de fatos e de datas sem nexo social; não há mais lugar para os reis que vão aos combates ou para os exércitos que conquistam vitórias, dando nome a generais; não, os reis retiraram-se, e deram lugar ao povo… A certa altura, foi aparteado pelo deputado Gilberto Amado que disse: Não foram propriamente os reis que deram: o povo foi quem tirou-lhes o lugar. E Americano do Brasil continuou: …ao rex-absconditus de todos os tempos, o único autor verdadeiro da história. Após aplausos, disse: A história é a sociologia, seu estudo deve observar a série dos fenômenos sociais, a função política, a administrativa, jurídica, religiosa, artística, científica e literária, em suma, conjunto que forma a própria história, como modernamente a compreendem os sociólogos. […] E prosseguiu: Reformemos os arcaicos processos de história, atualmente seguidos… Novamente interrompido, agora pelo deputado Domingos Barbosa que, incisivamente, enriqueceu a fala de Americano do Brasil: Não é a história que se ensina, mas a cronologia histórica.  E o deputado goiano concluiu: …a pura cronologia, como lembra o ilustre colega, e façamos da história um assunto aproveitável, social.

E, posteriormente, em 1932, Americano do Brasil caracterizou o historiador no “Prefácio” de sua Súmula de História de Goiás: O historiador tem de naturalista, para na primeira página de seu trabalho gravar a descrição exata da terra com sua flora, sua fauna, seu clima, em comunhão contínua com o homem; tem de etnólogo, para amar as componentes de nosso sangue mestiço e compreendê-las na eloqüente atividade de seu mourejar, ou nas folganças do lazer, ditando seus cantos e criando suas lendas para ocultar suas mágoas e apurar o misticismo atávico; tem de democrata, para segui-las nas aspirações, entendê-las nos anelos, para freqüentar suas palhoças e ouvir suas recriminações, para estudá-las, aristocráticas e evoluídas, nas lutas políticas e entender-lhes os assomos de liberalismo; tem de economista, para apreciar o povo no trabalho e calcular sua projeção futura na carta das riquezas; tem de filósofo, para analisar a formação mestiça da pátria, penetrar seus ideais, suas tendências e guiar suas transformações, premidas por novas circunstâncias; tem de erudito, para um completo conhecimento do passado nacional, de suas glórias, de seus anseios inatingidos, de suas tradições; tem de poeta, para fazer deste complexo um trabalho de vida, de seiva, onde palpite o Brasil […]

Finalmente,

afirmo que o historiador e o professor de História devem diferenciar-se do senso comum. Devem pensar simultaneamente numa História ampla, profunda e aberta que possa colocar, definitivamente à margem, a história estreita, superficial e fechada ainda hoje encontrada.

Abrem-se diante de nós novas perspectivas de se estudar a História e vocês não devem compartilhar com o sentimento de medo de esquadrinhá-las. Os estudos sobre as múltiplas manifestações da cultura, das mentalidades e das sensibilidades apenas abriram os primeiros caminhos. Desprezem a passividade de espírito e a preguiça mental. Ousem! Há ainda muito por realizar nesta ciência na infância e permanentemente em marcha.


Os autores e obras referenciados a seguir foram utilizados enquanto eu redigia este texto. BLOCH, Marc. Apologia da história ou O ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001, especialmente o “Prefácio” de Jacques Le Goff que aparece nesta edição. BORGES, Vavy Pacheco. O que é história. São Paulo: Brasiliense, 1982, particularmente, o tópico “A história, hoje em dia”, p. 44-66. BRASIL, Antônio Americano do. Súmula de História de História de Goiás. Cidade de Goiás: Imprensa Oficial, 1932, especificamente, o “Prefácio” do autor. BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a revolução francesa da historiografia. São Paulo: UNESP, 1997. DUBY, Georges et alii. História e História Nova. Lisboa: Teorema, sd., exclusivamente a entrevista com Georges Duby realizada por Raymond Bellour, que traz como título “O historiador, hoje”, p. 7-21. MOTA, Carlos Guilherme (org.). Febvre. São Paulo: Editora Ática, 1978. SILVA, Dinair Andrade da. Um intelectual e a história: Antônio Americano do Brasil. Brasília: Edição do Autor, 1982.